Por meio da aprendizagem cooperativa, professor muda a vida de jovens do Ceará
Professor Manoel
Para escrever um nome na história é necessário um ato que marque a vida de muitas pessoas. Melhor ainda quando se proporciona uma grande mudança, antes não alcançada. E foi assim que uma boa ideia mudou a vida de pelo menos 500 jovens.
Dizem que um detalhe faz toda a diferença. A vida de Manoel Andrade Neto confirma a afirmação. Nascido em Pentecoste, no interior do Ceará, o filho de agricultores não tinha uma perspectiva para alcançar um futuro brilhante. Na família, não havia alguém que tivesse estudado e, ao menos, vislumbrado o Ensino Superior, então, para ele, o destino não seria diferente.
Aos 9 anos, sua avó o chamou para morar em Fortaleza, com a desculpa de que ele precisava estudar, aproveitando para mantê-lo por perto. Com grande estímulo, Manoel foi sem medo. A cidade grande, a escola nova e os colegas pracianos. Era Fortaleza como ele nunca havia visto.
Conheceu o desconhecido e excêntrico mundo dos estudos. Aos 16 anos, em 1976, ele não sabia que um simples convite mudaria sua vida. Um amigo o chamou para montar um grupo de estudos, em que cada um ficaria responsável por ensinar uma matéria para os outros. A partir daí não tinha jeito, sua vocação falou mais alto.
Veio a vontade de ingressar em uma universidade. E por que não a Universidade Federal do Ceará? Estudou, escolheu um curso, teve fé e não poupou esforços. Deu certo! Ele foi aprovado para o curso de Química na UFC.
O mundo, então, mudou. A paixão pelo curso aflorou e a vocação, já descoberta ainda na adolescência, transbordou. Tornou-se logo um professor. Sua vontade de ensinar se uniu à saudade da cidade natal, da qual ele nunca se esquecera e que sempre visitara.
Casinha de farinha
O calendário já marcava o ano de 1994, dez anos após a formatura do jovem Manoel. Foi quando, em uma de suas visitas, a simples ideia ressurgiu: montar um grupo de estudos em Pentecostes. As dificuldades seriam muitas, já que no município não havia energia elétrica e água encanada, mas a vontade de mudar a realidade dos jovens de sua cidade foi mais forte.
Em uma casa de farinha abandonada, na localidade de Cipó, um grupo foi formado sob orientação do já professor Manoel. Para ele, veio o mestrado, o doutorado e o pós-doutorado. Para os meninos de Pentecoste, vieram o Ensino Fundamental, o Ensino Médio e o ingresso ao Ensino Superior. Deu certo mais uma vez!
O professor testemunhou a mudança de sua cidade natal. Aqueles que conseguiam passar em uma faculdade voltavam para ajudar os grupos de estudos, gerando impacto na educação e economia local. A esperança de alcançar a graduação tornou-se possível, antes nem existia.
O passar do tempo trouxe o sucesso e a fama do grupo. Além disso, mais interessados quiseram fazer parte. A simples ideia ultrapassava as barreiras de Pentecoste e percorria outros municípios cearenses: Apuiarés, Paramoti, Umirim, General Sampaio, Paracuru e Fortaleza. Destes, a ideia permanece ainda nos três primeiros.
A UFC, nova casa de Manoel, adotou os Programa de Educação em Células Cooperativas (Prece) como um projeto de extensão em 1998. A Secretaria de Educação do Ceará (Seduc) acreditou na prática e tornou-se parceira da ideia. Atualmente, 13 escolas estaduais, as Escolas Populares Cooperativas (EPCs), contam com mais de 2 mil estudantes inseridos. A metodologia da aprendizagem cooperativa é utilizada em paralelo a educação formal, complementando o ensino comum.

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